Pensei seriamente chamar a este pequeno texto: “A louca corrida renhida entre três piolhos bêbados e o velho que só mexia os dedos”, porém, achei que deveria tentar ser mais subtil e quem sabe, simpática. E não permitir que o meu celebre sarcasmo fala-se mais alto, mas o que dizer? Como já aqui se disse, a Loucura adora gógós! Simplesmente adora-os, são girissimos.
Como o título indica, a Loucura saiu à noite e foi “obrigada” (sim porque uma vez invocada, a Loucura têm o dever de comparecer) a entrar num desses recantos obscuros com fama de “bar gógó”. Tendo penetrado nesses antros com mau-humor, rapidamente se sentiu feliz e aliviada, afinal não havia qualquer rasto de sanidade em tal local. Encostada a uma parede, observou passivamente a pista de dança.
Ao som de qualquer música desinteressante, uma criatura abominável de cabelos compridos (como é marca de registo de todo o “bom” gógózinho) balançava-se histericamente, enquanto rodopiava freneticamente a cabeleira. Sou sincera, não sei se seria capaz de tal rodopio, aliás, vi uma rapariguita muito querida, com a tradicional mini preta e aquelas botas que lhes oferecem simpaticamente mais dez centímetros e a ilusão de que são altas, quando são meros tocos, a cambalear quando parou com o rodopio. Sinal de que sim, é verdade, ninguém normal aguentaria o famoso rodopio ou efeito de ventoinha sem vomitar largamente.
Mas voltemos a “abominável criatura”, o homem, ajoelhava-se no chão com as mãos ao alto, gritava ou pelo menos mexia a boca como se o fizesse, depois parava, e ficava estático como se tivesse engolido um garfo ou estivesse com hemorróidas, quando de súbito, voltava a mexer – apenas e só, a cabeça! Lindíssimo! A sensação que dá, a quem observa tão fantabulástico episódio, é que se trata de uma corrida entre piolhos. Pois sim, imaginem por momentos a cena: a dita criatura abominável no centro da pista e duas gógós umas de cada lado.
Uma meia-ruiva (sim refiro-me aquelas cabeleiras vermelhas, que de “ruivo” tem só o rotulo) que parecia possuída pelo demónio, gorda como um nabo, enfiada (literalmente enfiada, como se fosse um chouriço) numa espécie de corpete (extremamente piroso, de cetim preto, com umas fitinhas cuja cor me escapou completamente) e com uma saia pelo chão. Parecia a encarnação de uma lavadeira qualquer, mal amanhada de inícios de século, feita viúva recentemente.
A outra rapariga, parecia levemente sóbria, pelo que tive imensa pena dela, não conseguia abanar a cabeça a mesma velocidade que a outra e que o abominável, mas com tanto movimento, ainda me conseguiu acertar com a cabeça no nariz, o que deverá ser um sinal de que se estava a esforçar a pobrezita.
Porém, de repente, sem que ninguém estivesse a contar, aparece vindo do W.C. masculino, uma personagem parecida com um E.T. Não me perguntei porquê, aparentemente era um homem já entradote na idade, normal, mas quando se colocou estrategicamente no meio da pista, firme e hirto, com os braços estendidos na horizontal e apenas a mexer a ponta dos dedos, juro que pensei: olha o meu compadre. A pobre alma ou criatura, como preferirem, terminou a noite sentado no chão da tão afamada pista, com a língua de fora e novamente os braços estendidos, era, de facto, a visão de decadência humana no seu auge.
A Loucura sentiu-se verdadeiramente realizada, mas (e é necessário sublinhar) a Loucura não é gógó, simplesmente gosta de gógós, assim, como gosta de metaleirozinhos e freaks. Sendo que entre os seus preferidos se encontram os comunas e os monárquicos. Sim, porque nada há de mais louco que a política. A Loucura só não acha piada ao Irão ( agora esta na moda só falar-se disso, para dar ares de intelectual), nunca achou. Porque razão, não acha a Loucura piada ao Irão? Sei lá! A loucura tem loucuras que a própria loucura desconhece.
Moria – a Loucura